COMUNIDADE CAXUTÉ ENTREGA PRESENTE ECOLÓGICO DA COSTA DO DENDÊ A SAMBA KALÚNGA: pela Autonomia do Povo de Terreiro

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Cortejo do presente Ecológico Samba Kalúnga

Cerca de cem (100) membros da Comunidade Caxuté, em Maricoabo, Valença-BA, entre bebês de colo, crianças, jovens, adultos e idosos participaram, neste dia 02 de fevereiro, de um dos mais importantes rituais do Candomblé Angola – Kongo  da Costa do Dendê, o presente a Mam´etu Samba Kalúnga. O presente ecológico de balaio de palha de dendê e cipó, contendo alimentos (raízes, frutos e grãos) destinados à Nkisi, flores e perfumes naturais marca a retomada do ritual, após quase uma década. A decisão foi de toda a comunidade que caminhou do km 11, onde fica o Kunzo Nkisi Nkasuté Ye Kitembu Mvila, até a ponte de Graciosa -, divisa entre os municípios de Valença e Taperoá-BA, às margens  do Rio Vermelho, onde tomaram os barcos até o alto mar para realização do ritual. O local marca o aporte de negrxs bantus escravizados naquela região.

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Mapa de localização da Comunidade Caxuté, Fonte: Google

Este festejo religioso celebra a luta pela auto afirmação da identidade Bantu, congo-angola presente no Baixo Sul da Bahia. A entrega do presente de Samba Kalúnga, da Comunidade Caxuté é a expressão de um macro planejamento de autonomia e soberania dos terreiros e a marca da resistência ancestral da memória histórica, política, cultural e intelectual. A militância política institucional da Comunidade Caxuté tem prezado pela luta contra violência religiosa na Costa do Dendê, por meio de militância e trabalho com educação.

Para esta comunidade religiosa este é um momento de afirmação da tradição do candomblé de matriz africana Bantu e também indígena. Esta festa simboliza o encontro da África com o Brasil, em estado de solidariedade e integração, num jamberesu (culto as divindades do candomblé angola). Por estes motivos a comunidade decidiu optar pela autonomia de caminhar contra a violência religiosa, pela afirmação dos rituais, em crítica ao uso feito costumeiramente pelo Estado e suas instituições dos cultos afro-brasileiros.  “A comum utilização das tradições como vitrine de uma suposta democracia racial que não existe tem nos incomodado” afirma Kafurengá, Mam´etu no Kunzo Caxuté, “o que vemos mesmo é nossa identidade violada por várias opressões coloniais”, continua ela.

Mesmo numa data onde em vários países ocorrem celebrações que fazem referencia à memória ancestral histórica das tradições de Matriz Africana (Kaiala e Iemanjá), notamos que o “protagonismo” dos candomblés é substituído por um discurso hegemônico que considera dia dois de fevereiro como uma “festa” popular, onde as vozes do povo de terreiro são suplantadas por reportagens midiáticas, palanque político eleitoral, ações pontuais do poder público, dentre outros, que quase nunca debatem temas estruturais com a comunidade negra, mas, que nesse momento encenam apoios a partir dos órgãos oficiais de Cultura e Turismo. Ou seja, muito barulho e pouca ação efetiva, concreta e continuada. Exatamente por isso a Comunidade Caxuté voltou a sua antiga e tradicional forma de comemoração. Usualmente, depois dessa data, os cultos de Matriz Africana só aparecem no sincretismo religioso de lavagens das escadarias das igrejas católicas, ou como, alegorias.

As questões das comunidades negras de terreiro perduram o restante do ano: o racismo, a violência religiosa – violência da bancada evangélica congressista , violação de terreiros e filhxs de santo e Mukixi – e a ausência do estado laico. O ano de 2017 iniciou mostrando que as dificuldades vividas historicamente pelo povo negro só tendem a aumentar. Com a implantação e consolidação do golpe parlamentar, jurídico e midiático, produto de um sistema político que é submisso aos interesses econômicos, todas as medidas propostas pelo governo ilegítimo reduzem ou exterminam direitos conquistados com a luta do povo. A estas dificuldades a resposta é a afirmação das tradições, rituais e festa conforme a escolha da comunidade, construindo a identidade Bantu.

Fevereiro de Kalúnga

Durante o mês de fevereiro, historicamente se celebra Kaiala, essência das águas salgadas, Nkisi do mar e seus elementos. Mas, em nome do chamado sincretismo religioso, essa comemoração é vista como um espaço diversificado, muitas vezes ecumênico, contudo o que observamos é uma tentativa de apropriação cultural, onde a ancestralidade dos povos de matrizes africanas são subjugados à perspectiva que transforma nossos valores em folclore, diversão para turistas ou alegoria para legitimar ações do estado. “O mesmo estado que exclui e intencionalmente inviabiliza a vida do povo negro, tenta de maneira oportunista se apropriar das nossas celebrações”, diz Táta Luangomina, que assumi o posto de Taata Bankisi da Nzo Caxuté.

Kalúnga  é divindade eminente do Candomblé Angola, representação insigne da tradição Bantu. A grande mãe é incomensurável, ela é infinita, é a própria massa líquida que circunda os continentes. É o oceano, o mar. Kalunga é o próprio vácuo, o abismo, infortúnio, a desgraça, a peste, a calamidade, morticínio, Kalúnga é a morte. É a excelência, a eminência senhorial. É a representação da grandeza. Kalúnga é a eternidade, é o além, é uma das divindades que é responsável pela construção e a destruição do fio da vida. Kalúnga é a deusa da família, Samba é a vida.

Kiuá Mam´etu Kaiala, Kalúnga, Samba, Mikaiá, Kokuetu, Kianda, Kaiatumba…
Candomblé Congo-Angola resiste! Caxuté emancipando a mente da gente!
Kizomba Kaiala nas águas de Graciosa, que esse presente ecológico celebre no mar a resistência popular d@s ribeirinhos, marisqueiras, pescador@s e comunidades de Ndanji Africana.

“A tarefa dos terreiros é lutar por autonomia, preservação da memória ancestral e resistir junto ao povo negro e indígena” finaliza Mam´etu Kafurengá.

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REALIZAÇÃO: COMUNIDADE CAXUTÉ

REDE DE APOIO: Rede Mocambos, TEIA dos Povos, Koiaki Sakumbi, Casa do Boneco, FENACAB – Coordenação do Baixo Sul da Bahia.

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