Maionga em mim: preparação da III Vivência Internacional da Comunidade Caxuté (6 a 10/08)

Por: Profª Drª Ana Cristina Nascimento Givigi (Kiki Givigi)
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Kiki Givigi em reunião na Comunidade Caxuté

Eis que já começa o banho de folhas sagrado desde o momento em que o coração deseja ser curado, refrescado e ativado pelas ervas ancestrais… Foi assim que, dia 03 de junho, à beira da árvore sagrada de Kitembu, perto de suas raízes longas que se estendem àqueles que desejam aprender com o Tempo sentei-me, junto axs outrxs companheirxs, meus irmãxs e meus mais velhxs, para preparar cuidadosamente a ‘vivência’. Contudo, já estávamos vivendo, porque Tempo já começou o seu ofício eterno de dobrar-se, costurar, mudar milimetricamente os rumos das vidas, ensinar e ensinar… Preparávamos um tempo para outros –a III Vivência Internacional da Comunidade Caxuté- mas, certamente, a tessitura já havia começado porque o Tempo não nos espera para fazer seus milagres.

Olhares alegres guiavam nossas apresentações e reverencia aos que sempre estiveram ali naquele chão, cuidando por nós e de nós, os nossos ancestrais. Ao dizer quem éramos as nossas raízes se cruzavam com um Tempo que é para sempre misturando-nos ao ar, à terra e a água. O tecido para a vivência são as nossas histórias de vida e como estas se juntam às outras para afirmação de nossas identidades que resistem às capturas das máquinas de repetição. Queremos o novo e para isso é preciso fazê-lo!

Agradecemos a ‘mão’ sagrada de mulher que cuida com autoridade e força, Mame’tu Kafurenga, e partilhamos nossos desejos e intenções de construir dias de respeito, alegria, sabedoria e partilha sobre a ancestralidade e seus diálogos com o conhecimento junto àquela comunidade, em agosto.  

Cada um de nós parecia entender que o chão da Bahia precisa de memória ancestral e que é nosso dever para com a Terra dizer sobre as pegadas da diáspora, sobre as dominações, mas também sobre as afirmações, por meio de nosso canto, de nossa política, de nossa resistência à intolerância. A dívida construída com o racismo, sexismo e o patriarcalismo só pode ser aplacada com a extensão de nossos contos, com a força de nossas mulheres empoderadas pelo coletivo, com as práticas de nosso povo negro e seus segredos.

Na reunião entendemos que essa Kizomba não era nossa, era de Kitembo, que ele começa sua urdidura assim que o mundo começa, mas que nós a ele cantaremos por cinco dias para que os ecos ressoem naquele chão por toda eternidade e as folhas caiam sobre nossas cabeças. Nossas pegadas ali serão as giras de saberes, as palestras, as oficinas que irão escarificar os corações, na medida em que estes permitirem. É um movimento político ao encontro, à conversa, aos burburinhos e as formas de viver coletivas de um povo liberto por sua própria luta, sem Izabel, sem estado, sem brancos… Trata-se de uma libertação fabricada nos quilombos, nas florestas, nas ruas, nas senzalas, nos terreiros, mas também nos prédios, nas casas, nos sindicatos e nas associações. Trata-se de algo em curso, cuja oficina tem como madeira a árvore do Tempo.

Juntxs selecionamos o que cada instituição poderá trazer: os seus equipamentos, sua participação, suas delegações. A comunicação será importante processo de tradução destes dias 06 a 10 de agosto. Como toda tradução há de ter quedas e inadequações, mas também pontos de inflexão para futuras comunicações.

Conhecimento é produção, é quebra e junção, é tessitura e tempo. É disso que vamos falar, de como viver e dizer sobre a vida de outros modos.  As primeiras folhas já caíram, nossa vivência começou, que venham xs outrxs!

Mukuiu

Kiki 

 

 

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