Zwela à Tempo: carta da Kizoomba Maionga 2017

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Mpembele,

Mais uma vez, como tradicionalmente temos feito, reunimos entre rios, matas e manguezais na Comunidade Caxuté: candomblezeir@s, angoleir@s, indígenas, educador@s, estudantes, pescador@s, marisqueir@s e demais militantes de movimentos sociais (gente de vários cantos) para viver terreiro conosco.

 

Ao conectarmo-nos às raízes da Gameleira giramos saberes e fazeres acerca do “O pensamento Bantu Indígena no século XXI: memória biocultural, ancestralidade, identidade, território e resistência” Durante os dias de atividades, sentimos, construímos e compartilhamos nguzu por meio do giro de sabedorias milenares preservadas com muita luta pelos povos negros e vermelhos que resistiram e resistem corajosamente aos tiranos que tentam usurpar nosso território.

 

A inauguração do primeiro Museu da Costa do Dendê de Cultura Afro Indígena na comunidade, marcou o início das atividades da nossa Kizoomba Maionga 2017 e trouxe mais uma vez para o cerne das nossas giras de saberes, a relevância de salvaguardar a memória d@s noss@s ancestrais.

 

E não apenas como a criação de uma fonte histórica, mas sim como a construção de um importante instrumento de resistência das comunidades tradicionais da Costa do Dendê e do Baixo Sul da Bahia, que ainda lutam contra os processos insistentem em tentar de apagar os nossos saberes e fazeres.

 

Durante os dias que estivemos junt@s, comemos, bebemos, estudamos e trabalhamos em conjunto, vivendo e experienciando outras sociabilidades desde o princípio Bantu “UBUNTU”. Onde a Pedagogia do Terreiro é um sopro de esperança na caminhada de luta pela kukula dos povos que tanto sofreram, mas que ainda sim, amam esta terra.

 

Em meio a momentos tão difíceis para a humanidade se faz necessário cada vez mais aquilombar-mos, aldearmo-nos e cultivarmos experiências ancestrais como um caminho para o bem viver junto a Ntoto e os demais seres. Que cada ngorosi volvado, cada cantiga zwelada, cada nsaba colhida na mata e espalhada no Nzo se transformem em um ato de resistência, paz e respeito lançado ao universo por meio da manifestação dos nossos Mikisi e Caboclos.

 

Ao tomarmos nossa maionga, pedimos ao Soba Kitembu, que os ventos soprem os dias difíceis e todas as formas de opressão para bem longe e que o tempo gire e circule rumo a um novo período onde a fartura, a união, honestidade, humildade, justiça e kibúku guiem nossas vidas e que as águas da Maionga possam Kuoholola, nosso mutuê rumo a libertação de toda kizila causada pela colonização da vida e exploração da Mam´etu Utukilo.

Nzara Ndembu!

Moko iu Nzambi Mpungu!

Ciclo da Maionga, Comunidade Caxuté, Costa do Dendê – Valença/Bahia

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COMUNIDADE CAXUTÉ INAUGURA MUSEU DA COSTA DO DENDÊ DE CULTURA AFRO-INDÍGENA  

 
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O museu será inaugurado com a exposição do fotógrafo Almir Bindilatti e conta com o apoio do Programa Design Dialógico
O projeto Design Dialógico – uma Estratégia para a Gestão Criativa de Território continua sua itinerância pela Bahia e chega ao Baixo Sul, onde apoia a inauguração do Museu da Costa do Dendê de Cultura Afro-Indígena, no dia 6 de agosto, às 11h, no povoado de Cajaíba, município de Valença. O Museu é gerido pela Comunidade do Caxuté – que tem se firmado como um corpo de referência na defesa do legado ancestral Bantu-Indígena no território – sob a liderança da sacerdotisa Bantu Mam’etu Kafurengá (Mãe Bárbara).
O Museu da Costa do Dendê de Cultura Afro-Indígena será aberto com a exposição fotográfica de Almir Bindilatti, que retratou a região mostrando sua gente e suas belezas. Nessa exposição etnocultural, o fotógrafo aborda o patrimônio material, imaterial e ambiental da região, numa pesquisa iconográfica sobre as comunidades tradicionais da Costa do Dendê, trazendo a diversidade ambiental, arquitetônica, suas manifestações culturais – como o Zambiapunga, Capoeira, Burrinha e Marujada –, samba-de-roda e a pesquisa sobre os quilombos e irmandades negras.
O Museu é uma iniciativa da Comunidade Caxuté e está instalado numa área de mil metros quadrados, entre dendezeiros, Rodão do Dendê, matas e cacaueiros. A proposta do museu é mostrar a cultura Bantu e indígena, em suas conexões entre biodiversidade e diversidade cultural, intermediada por saberes herdados desta ancestralidade.
A Costa do Dendê é um recorte litorâneo do Baixo Sul, situada entre a foz do Rio Jaguaripe e a Baía de Camamu. Seus 115 km de litoral abrangem as localidades de Valença, Morro de São Paulo, Boipeba, Igrapiúna, Cairu, Camamu, Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá e Maraú. A região é um mosaico de praias, baías, manguezais, costões rochosos, restingas, nascentes, lagoas, rios, cachoeiras e estuários.
Portanto a grande legitimidade do Museu da Costa do Dendê, está na voz das comunidades tradicionais, visibilizadas neste espaço, fortalecendo um grande tecido sócio ambiental, constituído pela tecitura cultural, ambiental, histórica e arquitetônica abordadas neste Museu.
Sobre o Programa Design Dialógico
Design Dialógico – uma Estratégia para a Gestão Criativa de Território é um projeto da multifacetada estilista Márcia Ganem, com base no programa capitaneado pelo Instituto de Design e Inovação – INDI. Trata-se de um programa integrado de qualificação em cultura lançado em janeiro, que tem como proposta potencializar projetos voltados para o desenvolvimento sustentável de cinco territórios na Bahia – Ilha de Itaparica, Valença, Maraú, Saubara e Chapada Diamantina –, com base na identidade cultural de cada um deles. O objetivo maior é mapear, capacitar e valorizar as iniciativas culturais dos territórios que demonstrem potencial de ativação da economia criativa.
Serviço:
O que: Inauguração do Museu da Costa do Dendê de Cultura Afro-Indígena
Quando: 6 de agosto às 11h
Onde: Cajaíba, km 11 – Valença
Mais informações: www.museudacostadodende.com

4ª Vivência Internacional da Comunidade Caxuté: O Pensamento Bantu-Indígena no século XXI: memória-biocultural, ancestralidade, identidade, território e resistência.

 

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A Comunidade de Terreiro do Campo Bantu-Indígena Caxuté, está situada entre rios, dendezeiros, matas e manguezais, no povoado de Cajaíba, distrito de Maricoabo, Valença – BA. Vem sendo construído a mais duas décadas sob a liderança da sacerdotisa Afro, Mam´etu Kafurengá (Mãe Bárbara) que descende e amplia o legado partilhado por Mam´etu Kasanji (Mãe Mira) uma das mais destacadas matriarcas do Candomblé Bantu Kongo-Ngola do Baixo Sul da Bahia, na famosa Costa do Dendê.

A Comunidade Caxuté tem se tornado um território de referência na defesa do legado ancestral Bantu-Indígena no interior da Bahia, pois, além de ser um local destinado a celebração dos Mukixi[1] e Caboclos[2], a Comunidade tem se empenhado na construção de iniciativas que fortaleçam a ancestralidade e o modo de vida dos povos Bantu, como é o caso da Primeira Escola de Religião e Cultura de Matriz Africana do Baixo Sul da Bahia – Escola Caxuté que foi reconhecida com os Prêmios de Culturas Afro-brasileiras oferecido pela Fundação Palmares no ano de 2014 e de Patrimônio da Salvaguarda Cultural concedido pelo IPHAN em 2015.

As ampliações das demandas políticas, sociais, culturais, ambientais, econômicas e territoriais ecoaram de maneira mais intensa na última década, a partir da conquista de políticas e ações afirmativas que mesmo timidamente avançaram sob os limites do Estado brasileiro que infelizmente ainda nos dias de hoje reproduz um “modus operandi” escravocrata e colonial através do mito da democracia racial.

No entanto, nos dias atuais sentimos uma nova ofensiva que pretende aniquilar com força todas as conquistas ainda não consolidadas pelas comunidades tradicionais brasileiras, se tomarmos como marco a constituição de 1988, vamos ver que a sociedade brasileira tem experiência a mais de quatro séculos de opressão sob os povos originários e povos africanos vindos da diáspora, no entanto, não conseguiu sustentar três décadas de leis que em muitos casos nem mesmo saíram do papel e já estão sendo riscadas com sangue da história do período democrático nacional.

Percebendo que só com a ampla aliança com os povos do campo, das águas e das florestas é que a partir de 2015 a Comunidade Caxuté começa a se articular junto a Teia dos Povos no sentido de defender os territórios ancestrais e cultivar o Bem Viver, através da mobilização, educação libertadora, soberania alimentar e Agroecologia.

Nesse sentido, à oito anos a Comunidade Caxuté vem gestando junto a parceir@s o Projeto Viver Terreiro, que desde 2014 tornou-se um espaço de caráter internacional e através da Pedagogia do Terreiro, tem buscado dialogar com a sociedade sobre a importância do legado Bantu-Indígena no Brasil.

[1] Ancestrais vinculados a elementos da natureza cultuados nos terreiros de Candomblé oriundos da cultura Bantu (povos com identidade linguística similar oriundos região africana situada a baixo da linha do Equador, de onde foram trazidos os primeiros povos negros escravizados para a América)

[2] Ancestrais com fortes influências indígenas cultuados nos terreiros de Nação Angola.

Matriarca do Caxuté, Mam´etu Kafurengá cumpre agenda no Recôncavo da Bahia: integração e educação

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Da esquerda para a direita: Mam´etu Kafurengá, Babaloxirá Idelson Salles, Taata Luangomina e pessoas ligadas ao Ilê Axé Ogunjá

 

Com vistas a fortalecer o plano de integração, fortalecimento, afirmação e consolidação das práticas religiosas de matriz africana na sua trajetória, a sacerdotisa-mor da Comunidade de Terreiro do Campo Nksuté (Caxuté), Mam’etu Kwa nkisi Kafurengá, cumpriu agenda religiosa nas cidades de Cachoeira e São Felix, famoso território de identidade do Recôncavo Baiano, onde reside para cursar o Mestrado em Ciências Sociais, seu filho biológico e também de santo, o Taata Luangomina.

Em cumprimento de agenda a sacerdotisa realizou escrita a punho que irá compor seu trabalho de conclusão de curso, para obtenção do grau de pedagoga. Sua pesquisa busca compreender o processo de educação no Kandomblé Kongo-Ngola da Comunidade Caxuté.

Além de atender fiéis e simpatizantes, por meio de consultas espirituais, durante sua estadia em São Félix, a reverenda participou da abertura das funções religiosa do Ilê Axé Ogunjá, que é liderado pelo Babalorixá Idelson Salles, louvou aos orixás no terreiro de pai Idelson. No domingo, dia 14, invocou o orixá Oxalá e na segunda-feira, dia 15 celebrou o orixá Obaluayiê.

Mam´etu Kafurengá e Táta Luangomina foram bem recebidos dentro da sociedade Ogunjá e juntamente com outros líderes de terreiros, de regiões próximas, foram acolhidos durante os dois dias com banquetes especiais. Pai Idelson Salles a levou até a mesa de sua residência e preparou um café especial na hora para que a sacerdotisa pudesse se sentir em casa e a vontade.

Ao reafirmar a cultura bantu e integrar-se a irmãos de outras nações , Kafurengá reforça seu papel de líder de um terreiro Bantu-Indígena que se coloca a serviço da sociedade brasileira  e que tem se posicionado em defesa/prática da resistência negra-indígena e contra o golpe.

Confira o ensaio “na barra da saia”:

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Nota da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB Sobre o massacre do Povo Gamela – Maranhão

 

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) vem a público repudiar os ataques perpetrados contra o povo Gamela, ocorrido no Povoado de Bahias, município de Viana (MA) no dia 30 de abril de 2017, e mais uma vez denunciar o genocídio que está em trâmite no Estado brasileiro contra os povos indígenas.

As lideranças do Povo Gamela já vinham denunciando os planos de fazendeiros para matar lideranças de seu povo. No entanto, mais uma vez as autoridades competentes se omitiram diante das graves violações praticadas contra os povos indígenas seja por agentes estatais, seja por entes privados com o aval do Estado.

Não admitimos mais a morte de nosso povo e iremos até as instâncias internacionais cobrar a responsabilização daqueles que de forma descarada violam e incitam violências contra nossas comunidades confiando na impunidade de seus atos.

O direito ao território é um direito sagrado e não recuaremos um palmo de terra retomada. O massacre contra o povo Gamela envolvendo inclusive a amputação de membros do corpo de dois indígenas com mãos decepadas, cinco baleados e 13 lideranças feridos a golpes de facão e pauladas, que só não resultou em morte pela proteção de nossos encantados, pois o comando era para matar.

Somos povos originários desta Terra e exigimos respeito! Com tantas omissões e violações sistemáticas o Estado brasileiro declara guerra aos povos originários que lutam por justiça e o direito de viver dignamente como seres humanos.

Conclamamos todos e todas defensores e defensoras dos direitos humanos a cobrar do Estado brasileiro providências, pois basta de genocídio de nosso povo!

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil,
Parem o genocídio dos Povos Indígenas!
Por nenhum direito a menos!

 

Nota/reprodução do site: http://apib.info/2017/05/01/nota-da-articulacao-dos-povos-indigenas-do-brasil-apib-sobre-o-massacre-do-povo-gamela-maranhao/